Juventudes adiadas

Os avós embriagaram-se com a liberdade, os pais vivem presos e os filhos anseiam ser livres. Contam-se três gerações entre 1975-2022. À primeira, que na altura da independência teria entre 20 a 35 anos, e hoje, tem mais de 60 anos, Pepetela chamou geração da utopia, foi a que desde logo, com ou sem preparo,...

Os avós embriagaram-se com a liberdade, os pais vivem presos e os filhos anseiam ser livres.

Contam-se três gerações entre 1975-2022. À primeira, que na altura da independência teria entre 20 a 35 anos, e hoje, tem mais de 60 anos, Pepetela chamou geração da utopia, foi a que desde logo, com ou sem preparo, assumiu a gestão do país, fortaleceu laços nas trincheiras, subverteu sonhos, vozes contrárias e fabricou ideais que ocultaram a ambição de perpetuar-se no poder.

Ignorou o ideário contracorrente dos seus contemporâneos pan-africanistas, martirizados e sacrificados. Antes, garantiu uma sobrevivência pomposa, estabelecendo parasitas ricos sem ética como modelo a seguir, atrofiando indelevelmente os destinos das gerações seguintes.

Entretanto, a primeira geração reproduziu a segunda e esta, quando jovem, grande parte sucumbiu na guerra civil ou fugiu do país e ao regressar, assumiu a sombra dos pais/mães incapazes de se afastarem do poder, usando-o para dominar os filhos que hoje têm entre 35 a 50 anos. A geração tolhida. 

Pessoas formadas, algumas até tecnicamente capacitadas, mas sem qualquer hipótese de explorar as suas ideias, silenciada pelos privilégios obtidos por desempenharem cargos vazios sem poder algum. Outros há que aproveitaram o único “elevador social” disponível, a corrupção, para aceder a posições e títulos sem qualquer qualificação. Vivendo com medo de exonerações, subsistem pela troca de favores e alimentam o ciclo de mediocridade que ostraciza a crítica e o conhecimento.

Estes são os pais da maioria dos jovens de hoje (18 a 34 anos) que não viu guerra, mas é dizimada pela ignorância e precariedade dos serviços de saúde, educação, desemprego… Maioria sobrevive sem futuro,  sustém-se com “mixas, biscatos, zunga”.

Frequentam escolas, universidades que vendem diplomas e perpetuam a ilusão de que um canudo basta, mesmo que não saiba ler nem escrever, pensar, questionar, interpretar… Licenciados por decorarem definições, competem às centenas num mercado sem oportunidades para inovar ou desenvolver o país, mas que ainda assim, para estes jovens é melhor do que nada, pelo salário, benefícios e possibilidade de ascensão meteórica, não por mérito, mas por “fezada” ou “bajulação”.

Adia-se a juventude quando não se permite que cada uma, no seu tempo,  tenha oportunidade de experimentar, criar, errar, recriar… Quando não se cede o espaço ou se dá autonomia para que decidam sobre o seu futuro e o dos próximos. Adiar juventude, é sufocar o seu ímpeto natural, aniquilando-a de frustração em frustração.

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