QUE FILHOS VOLTARÃO À ESCOLA?

Escola

Educação em Angola

Filhos dos ministros, governadores, secretários de Estado, directores nacionais… haverá algum funcionário público de alta patente com os filhos na escola pública? Temos uma pequena classe de Angolanos que, por norma, enviam os seus descendentes para estudar no estrangeiro ou inscrevem-nos em escolas privadas em Angola.

E é estranho que na hora de decretarem o regresso às aulas não tenham descartado à partida, as escolas públicas, exactamente por saberem que não servem para os seus filhos, tanto por ausência de qualidade de ensino, como pelo nível de precariedade das infra-estruturas. Esqueceram-se?

É pouco provável. Afinal não seria politicamente correcto assumir, publicamente que o reinício das aulas seria apenas e só para os alunos que frequentam o ensino privado. “Angola é país de Cabinda ao Cunene” como refere a ministra de Estado para o Sector Social, mas continua a não ser país de direito igual para todos. E então a máxima de reabertura das escolas continua até concluírem, ou não, o que o país e o mundo sempre souberam: O filho do chefe pode voltar à escola privada, já o filho da zungueira se frequentava a escola pública, permanecerá em casa ou a trabalhar para ajudar a família.

Esse vai ter que esperar para que se faça o que não se quis fazer em 18 anos de paz, talvez se faça um pouco mais agora, dependerá tudo da COVID 19, ou seja, quando assumirem a contaminação comunitária e passarmos para uma realidade em que teremos que aprender a viver com o vírus e, por isso, água e sabão não poderão faltar. As nossas escolas públicas terão que ter casas de banho, água corrente e as instalações escolares devem ser condignas e higienizadas frequentemente.

Fazer de conta que se fornece água e sabão… Desviar verbas destinadas ao apetrechamento de material de biossegurança ou vender esse material a preços altos, limitando o acesso à maioria da população… Fingir que se higieniza os espaços escolares, descorar hábitos essenciais de higiene… Tudo isto porá também em causa a vida desses que desviam e roubam material, vendem ou fingem que cumprem as normas.

Exceptuando o elevado número de mortes, esta pandemia terá, em países como Angola, resultados positivos como o investimento significativo em sectores sociais, e quem sabe assim se conseguirá diminuir as desigualdades. Escolas públicas condignas, novos hábitos de higiene pessoal e em casa, assim como alimentação diária e nutritiva, produzirão efeitos de longo prazo sobre a vida destas crianças.

A pandemia urge uma reestruturação económica e, mais uma vez, é preciso ter cuidado para não colocar os ovos num só “cesto”. Cuidar da escola e das crianças, deveria ser o investimento mais importante para Angola neste momento. A COVID-19 obrigou-nos a reflectir e quem sabe levará a redefinir políticas públicas, quebrar o círculo da mediocridade e romper com a actual ignorância, corrupção e imoralidade.

Além do público, as escolas, colégios e universidades privados, no geral, são geridos numa perspectiva de negócio. Nesta relação comercial, o serviço prestado não é  escrutinado, os alunos/clientes pagam, deturpando assim qualquer critério de exigência e rigor.

Os professores também precisam de uma atenção cuidada, muitos deles trabalham em circunstâncias precárias e, antes mesmo de apontar o despreparo, é preciso dar condições de trabalho e assumir que a maioria, quer no público ou privado, sequer tem as competências necessárias para transformar o actual quadro de ensino, afinal também são produto de um crónico desinvestimento na Educação e Saúde.

Mandele Rocha

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