Seria mais uma greve dos taxistas e nada permitiu antever o que aconteceu. Os dias 28, 29 e 30 de Julho de 2025 ficaram na história, não pelo número de mortos (pelo menos 22 em Luanda e 12 em Malanje) nem mesmo pelos 197 feridos ou as 1214 detenções arbitrárias a que se seguiram 163 julgamentos sumários.
Nem a perseguição, detenção e ameaças veladas contra os presidentes das associações de taxistas ou a culpabilização da população amotinada… Tudo isto era previsível, assim como, os indignados discursos oficiais para desviar o foco as causas colocando-o nas consequências. Fazer circular táxis do regime para furar a greve… O mesmo esquema, as mesmas palavras e reacções.
Mas o que fica na história é o susto e o medo que o levante populacional provocou. Ninguém esperava que um número indeterminado de pessoas vandalizasse 192 estabelecimentos comerciais sem qualquer resistência. Por momentos, e dada a espontaneidade da circunstância, o medo dominou os dois lados da “barricada”.
Os primeiros a senti-lo foram as designadas autoridades por sinal, desprevenidas e incapazes de reprimir, como habitual, os diferentes focos de rebelião populacional. Não houve tempo para infiltrar agentes como falsos manifestantes, prender activistas antes da greve, bloquear acessos previamente. Os primeiros vídeos a circular nas redes sociais mostraram uma força policial que recua ao ser atacada por pedras.
Do outro lado, uma multidão desgovernada, orientada pela barriga vazia, mas sobretudo, pela força que só tem que é reprimido até à alma e que se inebria com o sabor da libertinagem, sem pensar que a seguir será alvo de uma força selvática fardada que atira contra mães, crianças, mãos vazias, paus e pedras.
A maioria da população fechou-se em casa, temorosa, à espera da repressão maior, sem saber ao certo quando nem como tudo iria terminar, assistindo aos tumultos nas redes sociais, abrigada e perdendo a conta dos sucessivos tiros noite fora.
Um ano depois, o maior legado de Julho é o medo. Os taxistas afastam vigorosamente a possibilidade de organizar novas greves. Os rumores de manifestações silenciaram-se e são muitos os que se aterrorizam só com a ideia de 28,29 e 30 de Julho de 2025, voltar a acontecer. Num chão onde o trauma grassa, a retraumatização diária é a principal fonte de manutenção do sistema.
Foto: novo jornal
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