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Mosaiko

Sentir África apesar do passado

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Passaram-se mais de cinco décadas desde que se declarou o fim do domínio português em Angola. Durante esse período pouco ou nada se reflectiu sobre as marcas psicológicas, sociais, culturais, políticas e económicas do colonialismo sobre os colonizados. Apesar da reprodução do sistema colonial que é visível no dia-a-dia, sobretudo nas cidades, o certo é que a maioria dos angolanos e angolanas não se vê hoje como reprodutor, continuador ou perpetuador do sistema colonial.

Essa autodescoberta tem vindo a acontecer e os diferentes movimentos pan-africanistas que vão surgindo entre os jovens nos últimos anos, assim o evidencia, contudo, é incomum questionar e reflectir sobre a contínua reverência e os privilégios atribuídos aos brancos e mestiços em Angola, onde as categorias de cor da pele fazem parte do léxico diário formal e informal e estão presentes em todas as camadas e grupos da sociedade, negligenciando o impacto sobre os não brancos.

Ser negro/a escuro/a em Angola continua a ser uma desvantagem social e financeira. Descobrir-se negro numa sociedade colonial como a angolana permanece um acto de resistência e os exemplos estão à vista. Somam-se os casos de violação de direitos e agressão física e verbal nas escolas públicas e privadas com regras que discriminam alunos pelo tipo de cabelo. Estas manifestações de auto-ódio não destoam de uma realidade em que nascer “clarinho” é aclamado como bênção e garantia de “avançar a raça”.

Tal como o tom da pele, África continua a ser sentida em Angola como um espaço pouco conhecido e, continuamente preterida a favor da Europa. A desumanização do/a negro/a não foi um acto isolado e pontual do passado, persiste e constitui-se uma herança perpetrada de geração em geração. De tal forma que em Angola o melhor destino traçado à nascença é branco e 50 anos depois, não existem meios/estruturas que ensinem as nossas crianças a tornarem-se negras, sem complexos, desnudas de preconceitos raciais.

Foi este contexto particular de Angola de assimilação, alienação cultural e apagamento histórico, mas sobretudo de negação do racismo e de cultivo de auto-ódio que impulsionou a realização de mais uma conferência, desta vez com o desafio de Sentir África.

Workshop Corpo Domado (Homens)
Workshop Língua Perdida

Conferência Sentir África – 27, 28 e 29 Janeiro 2026

O objectivo, desde logo, era contrapor a racionalização do Pensar África, onde predominou o discurso analítico sobre o continente como objecto, facto histórico e construção imperial. Necessário, sem dúvida, contudo mostrou-se igualmente urgente produzir além de conhecimento teórico, um conhecimento que brota das pessoas, sobretudo das que são alheadas do papel que desempenham nos diferentes sistemas que mantém África, Angola, angolanas e angolanos no espaço mental e físico em que se encontram.

Para se Sentir África entre os participantes foi determinante criar espaços de experimentação em grupo. Os cinco workshops temáticos contaram com uma média de 15 a 25 participantes por cada sala, no total 346 participantes durante os dois primeiros dias de conferência. Cada workshop foi desenhado para criar uma experiência imersiva, por essa razão, os workshops foram desenvolvidos pelo psicólogo Henda Vieira Lopes, juntamente com outros cinco psicólogos e dez assistentes locais para proporcionar um ambiente seguro em cada sala e, simultaneamente, um espaço de confronto, desconstrução e reflexão. Tornando difícil desassociar África da pele, do olhar, falar e do imaginar.

A fechar, já num formato conferência, numa roda de conversa três gerações analisaram os resultados preliminares dos workshops: Susana Inglês, Vítor Barbosa, Henda Vieira Lopes, Verónica Pereira, António Paciência e Lígio Katukuluka. A conferência terminou com uma palestra do frei Godfrey Nzamujo, fundador do Centro Songhai no Benim, partindo do pressuposto de que sem uma África descomplexada e desconstruída não haverá desenvolvimento com sentido.

frei Godfrey Nzamujo

Apoio: MISEREOR